A Presença Romana em São Lourenço dos Francos

São Lourenço dos Francos localiza-se na União das freguesias de Miragaia e Marteleira Concelho da Lourinhã, na margem direita do Rio Grande, a uma altitude de cerca de 25 metros.

 

Há cerca de onze séculos que a documentação alude a construções na zona da Igreja. Frei António da Purificação, em meados do séc. XVII, refere na sua “Crónica da Antiquíssima Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho” que o Mosteiro de São Lourenço dos Francos terá sido fundado no ano de 890, “na villa de Monardo” dos Francos. Segundo Frei João de Santo Estevão na “Crónica da Fundação do Mosteiro de S. Lourenço” refere um “… solho de casa debaixo do chão, ladrilhado de largos e grossos ladrilhos, (…) indício de que houve ali casas”.

 

Na publicação de 1987 de Mário Baptista Pereira, “Lourinhã Memórias da sua região”, dá-nos conta do seguinte: “… quando o antigo proprietário da Quinta do Perdigão Francisco Romeiro da Fonseca, mandou arrotear muito fundo a propriedade que adquirira junto de sua Quinta e em frente da Egreja referida, os quais objectos constavam, alicerces, telhas, etc.”

 

Cinco anos depois, Fr. Henrique Perdigão, em “Subsídios para a História da Ribeira dos Palheiro”, divulga informações pormenorizadas de achados arqueológicos dos quais destacamos os seguintes: “… quase no sopé do monte, perto do rio, nasce um olho de água permanente. Pesquisada esta nascente verificou-se que a corrente vinha por um cano feito com artificio Romano. (…) nas proximidades da Joaria, apareceram de mistura com a terra, algumas tijoleiras, pedaços de utensílios domésticos, duas ânforas de barro muito antigo, uns pedaços de ferros velhos e duas argolas (…), além de uma pedra curiosa em forma de machado.” Durante a abertura de um poço na “Quinta da Junceira, à profundidade de três metros, foram encontrados, com certa abundância, pedaços de tijoleira e cerâmica antiga.”

 

Neste conjunto de excertos podemos verificar a abundância de referências de potencial arqueológico, de diversas épocas, todas na área da Igreja e sua envolvente. Mas os indícios de potencial arqueológico sobem de nível quando olhamos para outros factos. No livro “Portugal Romano” editado em 1974, da autoria do arqueólogo Jorge Alarcão, é-nos dado a conhecer uma inscrição funerária mandada fazer por Júlia Máxuma, consagrada a Caio Júlio Lauro de 41 anos. Este mesmo aparece numa dedicatória a Marco Aurélio (imperador romano do séc. II) encontrada em São Tomás das Lamas, concelho do Cadaval. “Aparentemente, Caio Júlio Lauro foi um do quattuorviri de Eburobrittium no tempo de Marco Aurélio e teria a sua villa, na qual foi sepultado, perto de S. Lourenço dos Francos.” Ou seja, era um dos quatro magistrados da cidade romana em Óbidos.

 

No ano de 1976, José Beleza Moreira, publica na revista “Conimbriga” a anterior inscrição em conjunto com uma segunda consagrada a Júlia Máxima de 30 anos, mandada fazer pelo pai, Caio Júlio Severo, e sua mãe, Paterna. Existem outros documentos epigráficos com referências à família dos Júlios, no território de Eburobrittium e, estariam entre as grandes famílias de Eburobrittium, defende o arqueólogo Vasco Gil Mantas, na sua tese de doutoramento “A rede viária romana da faixa Atlântica entre Lisboa e Braga”. As pessoas referidas nas inscrições da Igreja de São Lourenço do Francos “estarão certamente ligadas por laços de parentesco” defende José Beleza Moreira.

 

Para corroborar todo este potencial, foi possível identificar vestígios cerâmicos nos terrenos em torno da Igreja, com maior concentração na zona nascente do actual cemitério (parte nova), por existir pouca ocupação do solo e vegetação. Foram identificados fragmentos cerâmicos de construção, tal como imbrices (telha de canudo),fragmentos cerâmicos para uso doméstico e escórias (restos da fundição), enquadráveis em época romana.

 

No Edital da Assembleia Municipal da Lourinhã de 23 de Setembro de 2016, no ponto XII - Proposta 33 - Discussão e votação da proposta relativa à "Atribuição de apoio financeiro à União de Freguesias de Miragaia e Marteleira, para aquisição de um terreno onde será instalado o crematório junto ao cemitério de S. Lourenço em Miragaia", é claro o interesse em construir numa zona de elevado potencial arqueológico, certamente que a salvaguarda de eventuais valores patrimoniais será acautelada. Na presente ata, este afigura-se como o sítio de maior potencial arqueológico para o período romano, no atual concelho da Lourinhã.

 

Arqueólogo

Sérgio Pinheiro